sexta-feira, 19 de agosto de 2011

boom

era a criatura mais bondosa, alegre, viva que todos já viram.

tinha tanto amor de dentro de si
que um belo dia, explodiu.

e quanta coisa saiu de dentro!

todos esperavam uma chuva de cores
milhares de arco-íris
fluorescentes
fogos de artifício em formatos de
corações, borboletas, estrelas
cheiro de chuva, perfumes de flor

nada

quando explodiu
nenhum cheiro
nenhuma cor
nenhum som
tudo em branco
vazio

tão cheio de possibilidades

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

fora de si

morreu de amor
chorou por tres noites
e trancou-se um mês, em algum cômodo, dentro de si
jurou que ficaria só para sempre e
que amor era uma mentira colorida

começou a odiar números pares
só sentava-se em mesas com uma cadeira
comprava dois ingressos, sendo um na ponta, para ficar sozinha
parou de achar beleza na lua
e não mais prestava atenção nas músicas que tocavam

até que percebeu: estava ficando feia
não ria ou sorria, e nem chorava, quase já não piscava 
sem amor, acabou não ficando só
a ignorância, a impaciência, o pessismismo a acompanhavam
até que cansou de tanta coisa triste

enfim, resolveu ficar à sós com o amor
e repousou em si

sábado, 13 de agosto de 2011

prazer,eu

Eu te vejo tantas vezes; num bar, numa esquina, no ponto do ônibus, atravessando a rua, no cinema sozinho. Eu não sei seu nome, sua cor preferida, que música você cantarola no chuveiro ou qual o livro que você está lendo. Mas eu juro, eu tenho certeza que eu podia me apaixonar por você. Ou não, mas como eu vou saber se eu nem te conheci?

Porque você, você pode ser qualquer um e também não pode. Porque qualquer um, eu não quero. Eu quero você. Você mesmo. Você, um qualquer que gosta de algumas coisas e não gosta de outras. Qualquer coisa que me agrade.

Você também não me conhece. Eu sou mais uma. Talvez, mais duas ou três. E eu te vejo todo dia, possibilidade. Eu te encontro todo dia, dúvida. E eu te quero cada vez mais, surpresa.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Sobre o nosso amor

É, eu podia fazer uma cena de filme. Sair correndo pela multidão e te alcançar, driblar toda a segurança do aeroporto, arruinar aquela grande festa de família fazendo alguma besteira fofa, fazer uma serenata na frente do seu trabalho. Mas não. Isso é amor de filme. Amor de filme, não quero não. Quero amor de verdade.
Amor de cafuné. Amor de respiração no pescoço de manhãzinha. Amor de abraço quente. Amor das coisas que acontecem entre os grandes acontecimentos. Amor pequeno. Bem inho. Quero amor de meu bem. Amor de cala a boca. De pedir desculpa. Amor que tem orgulho. Que bate a porta. Que acaba de vez em quando. Que se cansa das mesmas piadas.
Não precisa de flores não, nem faixa com meu nome, nem aquele anel mais caro. Não quero muito, nem quero de menos. Driblar, só os problemas. Correr, só da tristeza. Arruinar a festa pra quê, melhor curtir junto. Serenata? Me poupe, você nem canta bem.
Mas pode vir aqui e me ajudar a carregar a mala até o taxi, trocar a lâmpada, jogar cartas numa madrugada entediante. Venha nas noites frias e ligue nas noites quentes. A gente pede japonesa ou pizza e assiste metade do filme que você alugou.
E fica até a manhã seguinte.
E se quiser voltar, pode. Mas liga pra avisar.

domingo, 31 de julho de 2011

Sobre o meu amor

Eu vou conhecer meu amor naquela exposição super cult, naquele lugar que seu amigo meio new-age indicou. Ele será meio underground, fã de Bob Dylan, vai curtir Nirvana e ouvir Los Hermanos no último volume. Ele terá um ar meio fora do ar, vai falar das estrelas e tocar baixo enquanto eu pinto as unhas dos pés.
Na verdade, meu bem vai estar num debate de cinema neo-realista. Ele ouve Chico Buarque no carro, lê Umberto Eco e cozinha a melhor lasanha. Ele escreve contos, lê histórias em quadrinho e joga tênis.
Pensando bem, meu amado estará tomando café na minha livraria preferida, ele gostará de Cartola, deixa a barba por crescer, toca violino, gosta de filosofia e não lê best-seller. Ele adora tirar fotos e dirige uma moto. É campeão de xadrez, está aprendendo a surfar e faz uma ótima massagem nas costas.
Melhor ainda: vou conhecer meu amor naquela festa chata da sua melhor amiga e descobrir que ele adora Eddie Vedder e toca violão. Ele tem um estilo meio novo-nerd, nós vamos discutir Hitchcock aos domingos, Godard às segundas e nas sextas vamos assistir a um blockbuster.
Decidi-me: meu amor vai esbarrar em mim no meu bar predileto, ele ouve Beatles, sabe cozinhar tudo de culinária tailandesa e italiana, lê poesia, corre na praia e tem as mãos quentes. Ele sabe contar piadas e não suporta pagode.

Quer saber, o meu amor vai ser do jeito dele. E eu do meu.
Se não der certo, não tem jeito. Será desfeito.
E refeito, um novo amor.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

rima amarrada

Em cada abraço
um laço que faço
desmancho um nó
agora um pouco menos só
faço sorriso de enfeite
amarrando a mim esse deleite

domingo, 26 de junho de 2011

poeminha para passar o tempo

a vida nossa, sem graça, de cada dia
gracioso
cheios de graça e desgraça
passa
por ruas, canais, desvios, atalhos, espinhos
desa
      linhos
dessas línhas elÉtricas que ligam essa gente
passageiras  da vida
desligada das gentes que vive
essa vida que passa
por fios que tecem o tempo -
o maior mistério de todos os tempos
diluído em risos, respiros, tropeços, tiros, suspiros
qualquer vida de tempo que passa, que medimos
mas não suprimos
contamos em ideias, fatos, atos, terços, histórias
calculamos em cantos, encantos, desencantos, algum pranto
Ah... tanto
pouco tempo!
pra tantas passagens
até perco a conta
dos momentos que não cabem no momento
do não dito, do quase lá,do espaço entre os lábios, do arrepio
dessa vida feita de tempo que passa
em segundos
que preenchem as horas
dos instantes explodindo de minutos
que sem querer
perdem o minuto de dizer o mais importante:

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Sobre coceira nas costas e motivos para se amar

Coceira é uma coisa que irrita. Agora, a coceira que mais irrita é aquela que dá nas costas, naquele lugar em que não se alcança. Não importa o malabarismo que você faça, o lápis que você pegue para lhe ajudar, a porta que você se esfregue, você não vai acertar o lugar. Você precisa de um outro alguém para coçar - é a única solução. E eu não tinha mais um par de mãos para me socorrer. Eu telefonei para você, aos pulos, não sei porque dos pulos, mas eu pulava de um jeito engraçado, como se fosse uma anestesia para o meu nervoso. Ainda bem que você não estava em casa. Eu disse "ainda bem"? Como assim? Quem se importa em parecer ridícula num momento de vulnerabilidade como o meu?
Você atende e diz que está no viva voz, que sua reunião já vai começar, pede que eu fale rápido. Penso se seria uma boa ideia eu confiar meu drama para você e sabe-se mais quem. Na verdade, é um drama bem estúpido pensando agora, mas no momento exato em que ele acontecia, ele tinha todo o direito de se constituir com o maior drama do mundo. "Boa reunião" e desligo o telefone.
Nesse momento minhas costas já devem estar coçando faz cinco minutos. Qual será o tempo máximo que as costas podem ficar coçando? Penso então que devo pensar em outra coisa e assim o incômodo irá passar. Dizem que frio é psicológico, o que eu nunca acreditei, mas naquele momento depositei toda minha fé em coceira nas costas o ser.
Eu acrescentei umas duas linhas no meu trabalho, na tentativa de distração do meu probelma, mas já pensava em soluções drásticas como bater na porta do vizinho, até que sinto o barulho da chave na porta. "Minha reunião foi cancelada logo depois da sua ligação". Eu corro tão feliz pulando por entre os móveis em sua direção, quase te derrubando e você não entende o porque da minha alegria, mas me abraça mesmo assim. E sabe quando alguém te abraça e enquanto abraça arrasta as mãos pelas suas costas? Quem inventou este tipo de abraço, tem seu lugar no céu! E você, como você sabia exatamente o lugar certo?
A gente se desprende e eu tenho um sorriso bobo no rosto e você uma expressão indescritível de "não estou entendendo nada", o que me faz ficar ainda mais feliz. Você pergunta por que estou tão alegre.
- Obrigada, eu digo, como se você tivesse feito a coisa mais linda do mundo para mim.
- Pelo que?
- Te amo.
E lhe dou um beijo na testa.

domingo, 12 de junho de 2011

jantar

um vinho, tinto, pra combinar com seus lábios
você pede branco,
para combinar com a nossas mentes
vazias de desculpas
cheias de espaços para transbordar 

um menu sortido, de sortidas dúvidas
o de sempre, pra não errar
escolhi
você, pediu o mesmo
por já gostar

nós jantamos, a nós mesmos
sem garfo ou faca
sujamos o pano da mesa
não limpamos a bagunça 
e rimos na sobremesa

pagamos caro
por nosso fútil luxo
valeu a pena gastar
nosso pecado claro
com o nosso gostar

o gosto fica na mente
na boca, o desejo despejado
no guardanapo de batom
guarda sorrisos bobos e olhares digeridos
mastigamos os sabores de um belo dia frio

a gorjeta
queimamos no microondas

sábado, 4 de junho de 2011

Eu tomei o último gole do nosso milkshake.

Eu tomei o último gole do nosso milkshake. Eu sei, você gosta do último gole. Por que então não pedimos dois ao invés de um? Ah, você disse que não queria um inteiro, que podíamos dividir. Certo.
Claro, eu fiz de propósito. Já não lembro porque, mas tenho certeza que quando saímos do carro, nós estávamos irritados um com o outro. Então eu bebi o último gole de propósito. E beberia de novo.
Você não disse nada. Você sorriu. Sorriu? Tirou seu canudo do copo e lambeu os vestígios de sorvete batido. "Patético". "Eu ou você?".
Olhares.
Eu ou você, alguém pagou a conta. Eu tentava, sem sucesso, lembrar porque tínhamos brigado. Eu precisava saber! Eu precisava gritar, falar que estava certa, que a culpa era sua, dizer que você não me ouve, chorar, fazer uma cena, reclamar da louça que você não lavou no meio da discussão. Maldito motivo! Como posso ficar irritada com você sem saber o porque?
Nós chegamos em casa. Você disse que ia ver televisão. Nós trocamos algumas palavras secas sobre algum caso de algum amigo em comum, eu avisei que sua mãe ligou enquanto tomava banho. E eu já queria te abraçar, dar mil beijos e fingir que nada aconteceu. Mas o que aconteceu? - Nós pensamos. Então eu troquei de roupa e fui dormir.
Nove da manhã de sábado. Você não está na cama. Nem seu travesseiro. Ando até a sala e lá está você: dormindo no sofá. Por que?
Zzrrrrrrrrrrrrrummmmmm.
Eu posso ouvir seus passos irritados vindo da sala até a cozinha. Eu sinto que você está prestes a gritar seu silêncio do dia anterior, começando com "Você sabe que horas são?". Então você me vê despejando um líquido do liquidificador para o copo.
"Chocolate, seu preferido". Eu lhe entrego apenas um canudo. Você pega outro copo, despeja por volta de dois centímetros do milkshake. "Eu gosto de deixar o último gole para você".
Obrigado.
Obrigada.
Sorrisos.
Olhares.