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domingo, 1 de janeiro de 2012

Sobre calendários e pessoas.

Era uma noite como outra qualquer. Talvez exceto pela quantidade de gente nas ruas e de álcool na cabeça. Eu comi, tomei banho, reclamei um pouquinho, ri de coisas sem-graça, conversei, fiz telefonemas; como em qualquer outro dia. E passou o dia, passou a tarde e a noite passou.
E é preciso comprar um calendário novo. E tem coisas velhas que devem ficar - como o amor, a amizade, o carinho. O velho e o novo sempre andam juntos e não adianta falar de esquecer o que passou. Mas está tudo fechado e o calendário fica pra amanhã.
Amanhã, mais um dia, como outro qualquer. Eu vou comer, reclamar, tomar banho, rir. Não necessariamente nessa ordem. Porque o que vem antes e o que vem depois andam juntos e não adianta ficar programando tudo. Nem tudo vai dar certo. Porque há a surpresa, o inesperado.
Alguns dias do calendário vão ficar na memória. E não será por um grande motivo. Vai ser por um jeito diferente de se dizer que ama, por uma coisa sem graça que você vai rir sempre que lembrar, por uma conversa boba. Hoje pode ter um pequeno motivo para ser diferente. E por isso, não é bom deixar tudo pra amanhã.
Ontem, hoje, amanha. Alguns dias vão ser ótimos, outros nem tanto. Mas tudo fica mais fácil quando quem a gente gosta está junto. E por isso, todos os dias são um dia qualquer. Mas as pessoas não. Elas não podem ficar pra amanhã, de jeito algum. Elas não passam no calendário. E são elas que fazem os dias ficarem na memória. Velhas ou novas, elas não passam. Elas só ficam. De dia, de tarde e de noite. Ontem, hoje e amanhã.
Meu calendário não é feito de dias, mas de lembranças.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Os sentimentos não deveriam ir para o dicionário

Estava na dúvida se amava de verdade. Foi procurar no dicionário para ter certeza. Culpou-se. Talvez não amasse. Estava enganada esse tempo todo. Falavam em zelo, dedicação, afeição, ternuna, afeto, apego. Mais sentimentos. Ela queria algo concreto. Queria poder pegar no amor, embrulhar, enviar pra presente. Foi então procurar o significado dessas palavras que definiam o amor. Umas levavam às outras e todas voltavam ao início: amor. 
Queria chorar. Ela entendeu:  amor é um círculo vicioso, voltando sempre a si mesmo.O início sem final, o final sem início. Um que vai a dois e dois que volta a um. Não amava - concluiu. Não queria amar. Não daquele jeito. Se era para amar com repetições, voltando sempre ao começo, não queria. Não queria a possibilidade de um e dois, queria o três, quatro, treze, duzentos, um milhão, o infinito de caminhos. Queria o amor que muda, que avança, que cresce, que aprende. Amor que não se importa com início, meio e  fim. E sim com a possibilidade. 
Fugiu. Mandou uma carta para ele explicando o ocorrido, que não podia mais vê-lo pois amava do jeito errado,e que ele nao merecia isso. Ele, muito pacientemente, explicou a ela que cada um tinha seu jeito de sentir, que não podíamos classificar ou quantificar os sentimentos. Ela não acreditava, disse que os livros não se enganavam e que o dicionário era o livro que mais sabia pois tinha a definição de todas as coisas do mundo. 
Um dia, depois de alguns meses, recebeu em sua casa uma caixa cheia de livros de poesia com um bilhete que dizia: mando-lhe os corretos dicionários.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Carta de despedida

Querido, eu sou como um balão. Me encho de alegria com ti. Por isso, vou-me embora.
Não pense que é porque meu carinho acabou. Ele cresce a cada dia, eu juro.
Tudo bem, não vou mentir. A verdade, amor, é que já estou cheia de ti. Tão cheia que voo pelos ares. Sou mais leve com você. E é por isso que vou embora. Estou muito em cima e muito cheia. A qualquer momento, posso explodir e cair. E vai ser feio, muito feio. Então, vou-me embora. Vou-me embora para não correr o risco de virar mil pedaços.
Vou antes que você se vá. Nós sabemos que você se vai. Não pense que é por orgulho. Não pense apenas.
Não me diga que o presente está aqui para ser aproveitado. Porque às vezes o que a gente ganha não é o que a gente quer ou precisa. Eu sei, te quero. Se preciso, já não sei. Espero que sinta o mesmo.
Deixo para você meus poemas e meu gostar. Esses dois se confudem, assim como a gente se confunde em nós mesmos. Queime todos eles, delete todos os arquivos. Deixe só o seu favorito. Não tem porque se torturar com o passado. Ele é teimoso, vai vir de qualquer jeito.
Se quiser me ligar, acho melhor não. Mas se for preciso, ligue nos dias frios. E saiba que eu vou torcer por um inverno mais longo.
Só tenho uma coisa a pedir. Caso eu me desfaça em pedaços, sem você, promete que vai procurar as partes que mais gostava e guardar com você, para que ninguém fique com elas. Você as merece mais que os outros. E compra aquele livro que prometi pra você. Esse presente eu tenho certeza que você precisa.
Me deixa ir, vai. Vai, vai. Eu vou-me. Veja, estou só facilitando as coisas, querido.
Assinado, eu e você.

sábado, 4 de junho de 2011

Eu tomei o último gole do nosso milkshake.

Eu tomei o último gole do nosso milkshake. Eu sei, você gosta do último gole. Por que então não pedimos dois ao invés de um? Ah, você disse que não queria um inteiro, que podíamos dividir. Certo.
Claro, eu fiz de propósito. Já não lembro porque, mas tenho certeza que quando saímos do carro, nós estávamos irritados um com o outro. Então eu bebi o último gole de propósito. E beberia de novo.
Você não disse nada. Você sorriu. Sorriu? Tirou seu canudo do copo e lambeu os vestígios de sorvete batido. "Patético". "Eu ou você?".
Olhares.
Eu ou você, alguém pagou a conta. Eu tentava, sem sucesso, lembrar porque tínhamos brigado. Eu precisava saber! Eu precisava gritar, falar que estava certa, que a culpa era sua, dizer que você não me ouve, chorar, fazer uma cena, reclamar da louça que você não lavou no meio da discussão. Maldito motivo! Como posso ficar irritada com você sem saber o porque?
Nós chegamos em casa. Você disse que ia ver televisão. Nós trocamos algumas palavras secas sobre algum caso de algum amigo em comum, eu avisei que sua mãe ligou enquanto tomava banho. E eu já queria te abraçar, dar mil beijos e fingir que nada aconteceu. Mas o que aconteceu? - Nós pensamos. Então eu troquei de roupa e fui dormir.
Nove da manhã de sábado. Você não está na cama. Nem seu travesseiro. Ando até a sala e lá está você: dormindo no sofá. Por que?
Zzrrrrrrrrrrrrrummmmmm.
Eu posso ouvir seus passos irritados vindo da sala até a cozinha. Eu sinto que você está prestes a gritar seu silêncio do dia anterior, começando com "Você sabe que horas são?". Então você me vê despejando um líquido do liquidificador para o copo.
"Chocolate, seu preferido". Eu lhe entrego apenas um canudo. Você pega outro copo, despeja por volta de dois centímetros do milkshake. "Eu gosto de deixar o último gole para você".
Obrigado.
Obrigada.
Sorrisos.
Olhares.

domingo, 29 de maio de 2011

A pilha do controle remoto acabou.

A pilha do controle remoto acabou. Numa segunda às duas da manhã. Não tem pilha em casa e não tem onde ir para comprar. Por que uma pilha acabaria às duas da manhã? Ela teve o dia anterior inteiro, e outros dias da semana para fazer isso. Deveria ser proibido. Seria interessante uma lei que proibisse as pilhas de acabarem em horas em que não se pode conseguir outras para sua substituição. Sinto que isso evitaria muitos problemas das pessoas com o mundo. E se eu ficasse muito irritada e resolvesse usar uma bomba atômica só por que a pilha do controle remoto chegou ao fim? E quem vai me dizer depois que não teria sido motivo suficiente? Cada um sabe o tamanho da sua necessidade de ver Televisão. Ok, talvez eu esteja exagerando. Afinal, não foi a água do mundo que acabou ou o sol que nunca mais vai nascer.
Claro, eu posso trocar os canais pela Tv. Mas e se você é daquelas pessoas que fica pulando os canais incansavelmente até surgir algo interesssante para assistir? Acho que não é uma boa solução. Vá ler um livro, você disse, levantando os olhos da sua revista. Se eu quissesse estar lendo um livro, era o que estaria fazendo antes, eu disse. Desculpe, completei. Não se pode ter tudo que quer, nós pensamos. 
Eu levantei, lhe dei um beijo na testa e eu fui ler um livro. 

Foi ele quem comprou as pilhas no dia seguinte.

sábado, 28 de maio de 2011

Sobre tampas e pessoas

Eu tentava ridiculamente abrir a tampa de um creme. Minhas mãos já doíam e eu já havia xingado todas as tampas do mundo. Então você chega, ri e diz: deixa que eu abro. Eu disse que não, que era questão de orgulho. Como seria possível uma tampa não abrir? Elas são feitas para isso, afinal.
Sim, eu estava realmente irritada com aquela situação. E você prosseguiu:
- Para de fazer força; não é força, é jeito.
Essa é uma daquelas frases que todo mundo gosta de falar, mas odeia ouvir. E eu ouvi. Essa frase é uma mentira: tem tampas que precisam de força, tem tampas que precisam de jeito e outras que precisam dos dois. Você acha o que, que todas as tampas do mundo obedecem a algum tipo de regra para a sua abertura? - Eu disse.
Você riu de novo. Eu sentei no sofá, já cansada da minha árdua discussão com a simpática tampa. Talvez ela só não quisesse ser aberta naquele momento, ou nunca,quem vai saber. Às vezes as pessoas não querem conversar, não querem pensar, não querem cantar, sorrir, chorar e muitas outras ações que teriam sido feitas para realizar. Por que não poderia ser o mesmo com as tampas? Ou com uma gaveta que emperra? Então eu coloquei o pote em cima mesa e liguei a Tv.
Parabéns, você ganhou, eu desisto.
Wrak.
Você está na minha frente com o pote em uma mão e a tampa na outra. Eu primeiro lanço um semi olhar de raiva. Eu sabia que você faria isso para provar que conseguia abrir. Mas não, eu ri, e você riu junto.
- Era força; e jeito - você disse.
E nós fomos ver televisão, sem conversar, sem pensar. Só ver televisão.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

rima barata

encontro encanto
em todo canto
ao desencontro
de meus contos
você ganha mais pontos

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Eu te conto um conto
Mas não para fazer ponto
Porque eu ja perdi nosso placar
Só estou aqui para brincar