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sábado, 19 de novembro de 2011

minha escrita

Quando minhas histórias, contos, descontos, versos, inversos chegam aos seus olhos, queria que você entendesse que nem todas as palavras são sobre você.
Mas todas as minhas vírgulas são de amor. A pausa entre uma coisa e outra é o tempo do amor, o tempo do instante congelado.
Já você, está nas entrelinhas, escondido meio que sem querer querendo.
E meus pontos são sempre de exclamação, para fazer escândalo, chamar sua atenção.
Na exclamação, eu vivo de recomeçar. Nas vírgulas, respiro para poder amar. No dito não-dito, eu exclamo as vírgulas.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Os sentimentos não deveriam ir para o dicionário

Estava na dúvida se amava de verdade. Foi procurar no dicionário para ter certeza. Culpou-se. Talvez não amasse. Estava enganada esse tempo todo. Falavam em zelo, dedicação, afeição, ternuna, afeto, apego. Mais sentimentos. Ela queria algo concreto. Queria poder pegar no amor, embrulhar, enviar pra presente. Foi então procurar o significado dessas palavras que definiam o amor. Umas levavam às outras e todas voltavam ao início: amor. 
Queria chorar. Ela entendeu:  amor é um círculo vicioso, voltando sempre a si mesmo.O início sem final, o final sem início. Um que vai a dois e dois que volta a um. Não amava - concluiu. Não queria amar. Não daquele jeito. Se era para amar com repetições, voltando sempre ao começo, não queria. Não queria a possibilidade de um e dois, queria o três, quatro, treze, duzentos, um milhão, o infinito de caminhos. Queria o amor que muda, que avança, que cresce, que aprende. Amor que não se importa com início, meio e  fim. E sim com a possibilidade. 
Fugiu. Mandou uma carta para ele explicando o ocorrido, que não podia mais vê-lo pois amava do jeito errado,e que ele nao merecia isso. Ele, muito pacientemente, explicou a ela que cada um tinha seu jeito de sentir, que não podíamos classificar ou quantificar os sentimentos. Ela não acreditava, disse que os livros não se enganavam e que o dicionário era o livro que mais sabia pois tinha a definição de todas as coisas do mundo. 
Um dia, depois de alguns meses, recebeu em sua casa uma caixa cheia de livros de poesia com um bilhete que dizia: mando-lhe os corretos dicionários.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Carta de despedida

Querido, eu sou como um balão. Me encho de alegria com ti. Por isso, vou-me embora.
Não pense que é porque meu carinho acabou. Ele cresce a cada dia, eu juro.
Tudo bem, não vou mentir. A verdade, amor, é que já estou cheia de ti. Tão cheia que voo pelos ares. Sou mais leve com você. E é por isso que vou embora. Estou muito em cima e muito cheia. A qualquer momento, posso explodir e cair. E vai ser feio, muito feio. Então, vou-me embora. Vou-me embora para não correr o risco de virar mil pedaços.
Vou antes que você se vá. Nós sabemos que você se vai. Não pense que é por orgulho. Não pense apenas.
Não me diga que o presente está aqui para ser aproveitado. Porque às vezes o que a gente ganha não é o que a gente quer ou precisa. Eu sei, te quero. Se preciso, já não sei. Espero que sinta o mesmo.
Deixo para você meus poemas e meu gostar. Esses dois se confudem, assim como a gente se confunde em nós mesmos. Queime todos eles, delete todos os arquivos. Deixe só o seu favorito. Não tem porque se torturar com o passado. Ele é teimoso, vai vir de qualquer jeito.
Se quiser me ligar, acho melhor não. Mas se for preciso, ligue nos dias frios. E saiba que eu vou torcer por um inverno mais longo.
Só tenho uma coisa a pedir. Caso eu me desfaça em pedaços, sem você, promete que vai procurar as partes que mais gostava e guardar com você, para que ninguém fique com elas. Você as merece mais que os outros. E compra aquele livro que prometi pra você. Esse presente eu tenho certeza que você precisa.
Me deixa ir, vai. Vai, vai. Eu vou-me. Veja, estou só facilitando as coisas, querido.
Assinado, eu e você.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Parava em todos os livros e ia logo para o final. Precisava saber se o mocinho ficava com a mocinha, se a doença era superada, se a dor acabava. Queria só finais felizes. Se não fosse, devolvia para a estante. Mas ela ainda era jovem, e não tinha aprendido que o meio também tem sua graça e que não há estante para tanta decepção. Certo dia, chuvoso e empoeirado, pegou todos os livros que antes tinha descartado e reescreveu os finais.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Sobre o nosso amor

É, eu podia fazer uma cena de filme. Sair correndo pela multidão e te alcançar, driblar toda a segurança do aeroporto, arruinar aquela grande festa de família fazendo alguma besteira fofa, fazer uma serenata na frente do seu trabalho. Mas não. Isso é amor de filme. Amor de filme, não quero não. Quero amor de verdade.
Amor de cafuné. Amor de respiração no pescoço de manhãzinha. Amor de abraço quente. Amor das coisas que acontecem entre os grandes acontecimentos. Amor pequeno. Bem inho. Quero amor de meu bem. Amor de cala a boca. De pedir desculpa. Amor que tem orgulho. Que bate a porta. Que acaba de vez em quando. Que se cansa das mesmas piadas.
Não precisa de flores não, nem faixa com meu nome, nem aquele anel mais caro. Não quero muito, nem quero de menos. Driblar, só os problemas. Correr, só da tristeza. Arruinar a festa pra quê, melhor curtir junto. Serenata? Me poupe, você nem canta bem.
Mas pode vir aqui e me ajudar a carregar a mala até o taxi, trocar a lâmpada, jogar cartas numa madrugada entediante. Venha nas noites frias e ligue nas noites quentes. A gente pede japonesa ou pizza e assiste metade do filme que você alugou.
E fica até a manhã seguinte.
E se quiser voltar, pode. Mas liga pra avisar.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Sobre coceira nas costas e motivos para se amar

Coceira é uma coisa que irrita. Agora, a coceira que mais irrita é aquela que dá nas costas, naquele lugar em que não se alcança. Não importa o malabarismo que você faça, o lápis que você pegue para lhe ajudar, a porta que você se esfregue, você não vai acertar o lugar. Você precisa de um outro alguém para coçar - é a única solução. E eu não tinha mais um par de mãos para me socorrer. Eu telefonei para você, aos pulos, não sei porque dos pulos, mas eu pulava de um jeito engraçado, como se fosse uma anestesia para o meu nervoso. Ainda bem que você não estava em casa. Eu disse "ainda bem"? Como assim? Quem se importa em parecer ridícula num momento de vulnerabilidade como o meu?
Você atende e diz que está no viva voz, que sua reunião já vai começar, pede que eu fale rápido. Penso se seria uma boa ideia eu confiar meu drama para você e sabe-se mais quem. Na verdade, é um drama bem estúpido pensando agora, mas no momento exato em que ele acontecia, ele tinha todo o direito de se constituir com o maior drama do mundo. "Boa reunião" e desligo o telefone.
Nesse momento minhas costas já devem estar coçando faz cinco minutos. Qual será o tempo máximo que as costas podem ficar coçando? Penso então que devo pensar em outra coisa e assim o incômodo irá passar. Dizem que frio é psicológico, o que eu nunca acreditei, mas naquele momento depositei toda minha fé em coceira nas costas o ser.
Eu acrescentei umas duas linhas no meu trabalho, na tentativa de distração do meu probelma, mas já pensava em soluções drásticas como bater na porta do vizinho, até que sinto o barulho da chave na porta. "Minha reunião foi cancelada logo depois da sua ligação". Eu corro tão feliz pulando por entre os móveis em sua direção, quase te derrubando e você não entende o porque da minha alegria, mas me abraça mesmo assim. E sabe quando alguém te abraça e enquanto abraça arrasta as mãos pelas suas costas? Quem inventou este tipo de abraço, tem seu lugar no céu! E você, como você sabia exatamente o lugar certo?
A gente se desprende e eu tenho um sorriso bobo no rosto e você uma expressão indescritível de "não estou entendendo nada", o que me faz ficar ainda mais feliz. Você pergunta por que estou tão alegre.
- Obrigada, eu digo, como se você tivesse feito a coisa mais linda do mundo para mim.
- Pelo que?
- Te amo.
E lhe dou um beijo na testa.

sábado, 4 de junho de 2011

Eu tomei o último gole do nosso milkshake.

Eu tomei o último gole do nosso milkshake. Eu sei, você gosta do último gole. Por que então não pedimos dois ao invés de um? Ah, você disse que não queria um inteiro, que podíamos dividir. Certo.
Claro, eu fiz de propósito. Já não lembro porque, mas tenho certeza que quando saímos do carro, nós estávamos irritados um com o outro. Então eu bebi o último gole de propósito. E beberia de novo.
Você não disse nada. Você sorriu. Sorriu? Tirou seu canudo do copo e lambeu os vestígios de sorvete batido. "Patético". "Eu ou você?".
Olhares.
Eu ou você, alguém pagou a conta. Eu tentava, sem sucesso, lembrar porque tínhamos brigado. Eu precisava saber! Eu precisava gritar, falar que estava certa, que a culpa era sua, dizer que você não me ouve, chorar, fazer uma cena, reclamar da louça que você não lavou no meio da discussão. Maldito motivo! Como posso ficar irritada com você sem saber o porque?
Nós chegamos em casa. Você disse que ia ver televisão. Nós trocamos algumas palavras secas sobre algum caso de algum amigo em comum, eu avisei que sua mãe ligou enquanto tomava banho. E eu já queria te abraçar, dar mil beijos e fingir que nada aconteceu. Mas o que aconteceu? - Nós pensamos. Então eu troquei de roupa e fui dormir.
Nove da manhã de sábado. Você não está na cama. Nem seu travesseiro. Ando até a sala e lá está você: dormindo no sofá. Por que?
Zzrrrrrrrrrrrrrummmmmm.
Eu posso ouvir seus passos irritados vindo da sala até a cozinha. Eu sinto que você está prestes a gritar seu silêncio do dia anterior, começando com "Você sabe que horas são?". Então você me vê despejando um líquido do liquidificador para o copo.
"Chocolate, seu preferido". Eu lhe entrego apenas um canudo. Você pega outro copo, despeja por volta de dois centímetros do milkshake. "Eu gosto de deixar o último gole para você".
Obrigado.
Obrigada.
Sorrisos.
Olhares.

domingo, 29 de maio de 2011

A pilha do controle remoto acabou.

A pilha do controle remoto acabou. Numa segunda às duas da manhã. Não tem pilha em casa e não tem onde ir para comprar. Por que uma pilha acabaria às duas da manhã? Ela teve o dia anterior inteiro, e outros dias da semana para fazer isso. Deveria ser proibido. Seria interessante uma lei que proibisse as pilhas de acabarem em horas em que não se pode conseguir outras para sua substituição. Sinto que isso evitaria muitos problemas das pessoas com o mundo. E se eu ficasse muito irritada e resolvesse usar uma bomba atômica só por que a pilha do controle remoto chegou ao fim? E quem vai me dizer depois que não teria sido motivo suficiente? Cada um sabe o tamanho da sua necessidade de ver Televisão. Ok, talvez eu esteja exagerando. Afinal, não foi a água do mundo que acabou ou o sol que nunca mais vai nascer.
Claro, eu posso trocar os canais pela Tv. Mas e se você é daquelas pessoas que fica pulando os canais incansavelmente até surgir algo interesssante para assistir? Acho que não é uma boa solução. Vá ler um livro, você disse, levantando os olhos da sua revista. Se eu quissesse estar lendo um livro, era o que estaria fazendo antes, eu disse. Desculpe, completei. Não se pode ter tudo que quer, nós pensamos. 
Eu levantei, lhe dei um beijo na testa e eu fui ler um livro. 

Foi ele quem comprou as pilhas no dia seguinte.

sábado, 28 de maio de 2011

Sobre tampas e pessoas

Eu tentava ridiculamente abrir a tampa de um creme. Minhas mãos já doíam e eu já havia xingado todas as tampas do mundo. Então você chega, ri e diz: deixa que eu abro. Eu disse que não, que era questão de orgulho. Como seria possível uma tampa não abrir? Elas são feitas para isso, afinal.
Sim, eu estava realmente irritada com aquela situação. E você prosseguiu:
- Para de fazer força; não é força, é jeito.
Essa é uma daquelas frases que todo mundo gosta de falar, mas odeia ouvir. E eu ouvi. Essa frase é uma mentira: tem tampas que precisam de força, tem tampas que precisam de jeito e outras que precisam dos dois. Você acha o que, que todas as tampas do mundo obedecem a algum tipo de regra para a sua abertura? - Eu disse.
Você riu de novo. Eu sentei no sofá, já cansada da minha árdua discussão com a simpática tampa. Talvez ela só não quisesse ser aberta naquele momento, ou nunca,quem vai saber. Às vezes as pessoas não querem conversar, não querem pensar, não querem cantar, sorrir, chorar e muitas outras ações que teriam sido feitas para realizar. Por que não poderia ser o mesmo com as tampas? Ou com uma gaveta que emperra? Então eu coloquei o pote em cima mesa e liguei a Tv.
Parabéns, você ganhou, eu desisto.
Wrak.
Você está na minha frente com o pote em uma mão e a tampa na outra. Eu primeiro lanço um semi olhar de raiva. Eu sabia que você faria isso para provar que conseguia abrir. Mas não, eu ri, e você riu junto.
- Era força; e jeito - você disse.
E nós fomos ver televisão, sem conversar, sem pensar. Só ver televisão.

domingo, 1 de maio de 2011

Atrasado

A cada gole que você bebia, menor meu tempo ficava. Só um café, esse é meu tempo, você disse.
Desculpa se agora todo o antes parece invenção. Pode ser que tenha sido tudo mentira mesmo, mas foi bom, não foi? No fundo, não é isso que importa? Toda mentira tem aquela coisa de querer ser verdade e dizem que o esforço já vale algumas vezes. Vai, confessa que nós mentimos juntos. Confessa que essa sua auto-confiança é só esconderijo. Você sabe que eu não te acho a melhor. Você é instável, exagerada, sincera. Ainda assim eu quero você. E outro gole se vai.
Eu sei o grande problema. O porquê da sua fuga - você não pode me mudar. E você não aceita falhar, você luta, corre, arrisca, mas já não quer mais estrangular a si mesma em vão. E eu sei que não vou mudar você também. Eu odeio quando você me liga só pra dizer que o céu está lindo. Mas eu ainda te procuro.
Me diz, se acabou pra você, pra que aquela foto que você não apagou? Viu, eu sabia. Não, não é jogo sujo. Glup. Glup. Glup. Você me olha com olhar de raiva. Você interpreta bem, muito bem. Você não tem raiva de ninguém, você não consegue, você se esforça, parabéns, mas não consegue.
Você pergunta como vai minha mãe. E agora quer saber se eu prefiro a pipoca doce em cima ou embaixo caso ela seja meio-a-meio. Como assim? Não, não faça isso. Eu odeio quando você pergunta trivialidades no meio de uma conversa importante. Você odeia brigar, eu sei, mas não vamos consertar isso depois. Mais um gole.
Você é uma perda de tempo. Você não compra nem na metade das palavras que esses caras falam pra você ao pé do ouvido. E ainda assim , você ouve todas. Então me ouve, eu também sou um deles. Você só está se divertindo, eu sei. Uma criança é o que você é, acredita em tudo, pergunta tudo. Curiosa. Tá vendo, a culpa é sua e sua curiosidade. Você foi até o quase final, ofereceu o doce e puxou antes da mordida. Mas mesmo assim, fica, por favor. Eu lhe compro vários cafés. Aqui e depois em casa.
Você pede a conta. Eu conto os minutos. Você ainda tem café. E eu não disse nada. Você toma o último gole de nós. Aquilo não era só café. E acabou, desceu frio pela garganta de tanto esperar.
-Está bem.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

     O céu estava incrivelmente azul. Não era um dia para se morrer. Mas nunca é dia para nada, ainda mais para de morrer. Só que como tudo na vida, aconteceu. Se foi na hora certa ou errada, quem vai saber. Essas horas se entrelaçam a todo momento e a grande questão se transforma no segundo correto ou errado.Só que  nós nunca acertamos os segundos, acertamos? É tão difícil.
     Não vou dizer como eu me senti, não. Seria bobeira, pois nunca se sente igual e ninguém conseguiria entender. Não vou dizer que chorei três dias seguidos. Não tem porquê mentir. É verdade, eu pensei nas coisas que eu podia ter feito de outro modo. Pensei e passou, como todo pensamento. Faz pouco tempo e agora, nesse segundo, eu não me sinto diferente. Acho que a saudade não vem assim. Ela vem naqueles momentos em que se cai uma gota mínima de alguma lembrança das nuvens da memória. Pode ser que vire temporal ou pode ser só chuva de verão.
     Depois da chuva, pode vir mais chuva. E sol também. Pois é, é uma metáfora bem ridícula. Mas quase tudo na vida pode ser bem ridículo se pensarmos bem. E agora eu penso: o céu estava ridiculamente azul. E ainda assim, aconteceu. E passou, passou, vai passar.
     Qualquer segundo pode fazer diferença.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Lá vem a história


Uma poeta e um músico se apaixonaram. Aconteceu numa noite chuvosa de sábado. Uma barulheira sem tamanho naquele bar. Ele sugeriu irem a um lugar mais calmo. Num impulso ela ofereceu seu apartamento. Conversariam mais , beberiam mais e se conheceriam mais.
Foi amor a primeira vista. Ela não acreditava nisso. Dizia ser uma desculpa dos tolos para seus atos impensados. Ela preferia dizer que era paixão. No fundo, era amor. Ele dizia que era o destino. Ela concordava, para não brigar. Era sorte. O importante é que se entendiam. Alimentavam-se de arte. Todas as noites ele cantava no ouvido dela e ela escrevia mensagens românticas pela casa. Noites de versos improvisados e sopros de saxofone. Uma festa de agudos entre sussurros de amor em um concerto privado.
O tempo foi passando. E as palavras dela já não eram mais suficientes; seus versos não tinham mais graça. E a melodia dele não servia mais. As noites não eram mais de declamações, eram de silêncio. A música parou. A poesia parou.
Eles tentaram de tudo para voltar a como era antes, mas tinham perdido a sintonia. Porém,não desistiram até terem a grande idéia: iriam interpretar! Ele seria o músico e ela seria a poeta. Voltaram ao lugar onde se conheceram para tentar novamente. E assim foi. As noites silenciosas viraram explosão de letras, exclamações e rimas entrelaçadas em diferentes ritmos. Eles precisavam de mais que palavras, mais que melodia, mais que eles mesmos. Eles precisavam da mentira, que não deixava de ser verdade.
Mas essa só mais uma história entre tantas outras mentiras minhas.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Retrato

Mais uma noite fria. Entro num bar. Mulheres com olhares atentos, curiosos, a procura. Em todo canto, cantos de olhos observantes. Sorrisos singelos, alguns sem -vergonha. Homens - ou seriam garotos? - com sua falsa desatenção. Sorrisos hipócritas. Todos loucamente estúpidos. Mas ao menos estão vivos, não estão? Estão se divertindo? Eu divirto-me, rindo desta tristeza, vivendo.

domingo, 14 de junho de 2009

Escolha bem seus sapatos

Nove horas
Ele tinha dito oito e meia, mas sabe como é
Ele não se importaria quando a visse
Não daquele jeito
Seus olhos sorriam
Desceu os degraus com cuidado
Suas pernas estavam deslumbrantes
Com aqueles saltos
Pecaminosamente instigantes
Ela não está acostumada
Não como aquelas mulheres com sete centímetros a mais
que desfilam majestosamente
Ela parece estar sempre com pressa
Como se quisesse glorificar cada momento
Mas hoje foi diferente
Ela fez tudo com uma calma encantadora, tão devagar ....
Como se cada segundo fosse uma dedicatória à vida
Cabelos cheirosos, unhas pintadas, perfume, vestido impecável
Sim, estava linda

Nove e quinze, nove e meia, dez horas
Tic tac
Será que algo teria acontecido?
Será que ela tinha entendido errado?
Resolveu ir para o restaurante
"Taxi!"
Esperando...
Apoiou-se no muro da rua
Onze horas, meia noite
E os malditos sapatos;
torturantes
Voltar para casa, sim
Andava e pensava
As vezes pensava e esquecia de andar

Abriu a porta
Parou em frente ao espelho
Veja seu reflexo
Eu posso jurar que nesse momento caiu uma lágrima de seus olhos
Não chore por tão pouco
Não, chore
Chore na sua pureza, garota
Chore por sua imaginação
Chore toda sua volúpia
E depois ria-se
Veja como tudo já passou
Sabe, seu cabelo fica bem melhor assim, bagunçado
Vá, gargalhe de toda essa dor
Porque é certo que você fica bem melhor sorrindo
A culpa não é sua
Eram apenas os sapatos errados

domingo, 22 de março de 2009

Rua de Pedras Vermelhas

Ela mora numa rua de pedras vermelhas incomuns
É silenciosa, do tipo que não vemos mais hoje em dia
Número treze, entrada simples de degraus escorregadios

Ela chega, sem tempo de avisar o tempo.
E você pode perceber pelo peso de seus suaves passos
Que quase sem querer chamam atenção
E assim, nem que seja por um segundo, ela sempre se faz notar
Que aconchego nesse dia frio, poder observá-la.
Ela desvia graciosamente das poças de chuva no chão
Ou seriam de lagrimas minhas que derramei enquanto esperava?
Ela nunca saberá.

Eu esperei tanto...

O colorido de seus lábios rosas
Misturando-se com o vermelho do chão e as poças
Ela exagera emoções
E se diverte enquanto todos assistem
Seus olhos de criança, inocentes, sorriem ao dizer “Bom dia” ao porteiro.
Como ela consegue sorrir com os olhos?

Que linda mulher, penso.

Você prestou atenção nas suas unhas vermelhas?
Seria ela capaz de ferir alguém?
Será que eu me arriscaria a saber a resposta?
Agora eu estou mais perto...
Posso sentir seu gosto... derretendo na minha boca
Ah sim, eu consigo ouvir o sussurro doce de seus lábios apimentados,
Me chamando...
E eu estou tão perto...tão perto...

...

E de repente eu vejo apenas uma sombra alta e forte se aproximando
Passando pelo número nove, onze, treze!

Braços fortes a enlaçar aquela pequena criatura
Abraçar a minha menina!
E eu fecho os olhos por alguns segundos tentando acreditar ser só uma ilusão.
E ela não está mais lá.

Até amanha, menina.
Eu voltarei à sua porta;na rua de pedras vermelhas.
Vermelhas, machucadas pelo meu caminhar.